Saturday, August 24, 2013

O machão e o machista: Duas faces da mesma moeda e o equívoco do socialismo moreno

 

Aí que eu chego em casa, vou fazer pipoca para a minha pequena e ao entrar no twitter um monte de gente está falando sobre este texto aqui da Cynara Menezes. Gosto de escrever sobre teoria política, debates programáticos, coisas diversas da política e para mim o feminismo se enquadra aí na disputa política, na estruturação de movimento social e normalmente não me meto em tretas de internet, mas hoje deu.
Esse texto aqui não pretende ficar dizendo se é de boa se interessar por pessoas x ou y. O desejo sexual entra em outra esfera do debate e pra mim esse não é o eixo organizador do que ali tá escrito, até por que há limites entre o livre exercer da sexualidade e relações abusivas. O intuito deste texto é localizar os debates programáticos feministas numa real perspectiva de esquerda, pois me causa espanto um blog chamado “Socialista Morena” não conseguir localizar os debates sobre opressão de gênero junto às pautas da esquerda socialista.
Digo isso por que ao abrir o site hoje para ler o post não conseguia conceber alguém que se reivindica de esquerda localizar tão mau um debate que, ao meu ver, é estratégico para a esquerda. Primeiro por que recai numa heteronormatividade tacanha e cissexista, ajuda em um processo de apagamento da população LGBT. Quero crer que foi apenas um deslize esquecer que as pessoas não se relacionam ou se sentem atraídas apenas por gente de gêneros diferentes. Ou seja, o texto publicado hoje pela jornalista e blogueira atenta a luta LGBT de forma rasteira e desinformada.
Além do mais, o texto parece ser retirado de algum blog da Veja. Sim, o conservadorismo político e a manutenção do machismo, racismo e LGBTfobia andam de mãos juntas. Pois é necessário ao capital estas relações de opressões permanecerem, é onde a exploração consegue se permear melhor é mantendo à margem as “minorias”. É esta estrutura conservadora e opressora que a posição ao se tentar dividir questões que não são divisíveis, pois o machismo, como já disse neste texto e em outros que circulam por aí, é estruturante do capitalismo. O machismo tem representação concreta nas relações abusivas entre os gêneros e também tem representação ideológica, não existe essa de dividir as coisas, por que não se divide categorias que formam a nossa atual sociedade.
Não é um maniqueísmo de que os homens cis são maus e o resto é bom. Não por que todas nós fazemos parte desta sociedade e as contradições dessa estrutura social aparece cotidianamente. Machismo é estrutural, assim como o racismo e a LGBTfobia e sendo estrutural dessa sociedade é preciso ser combatido de forma estratégica e não se utilizando de justificativas bobas, vazias para tentar provar o que não existe.
A lógica das mulheres serem propriedades dos homens é perpetuada ao longo dos séculos, é quando olhamos pra localização social do gênero que percebemos que o “proteger” que a Cynara ovaciona contra o “submeter” fazem parte de um mesmo enredo, nada mais do que isso. O “proteger” é o proteger algo que é seu, a sua propriedade privada, a sua propriedade mulher e não dá para a esquerda socialista achar isso de boa, um mal menor e afins.
Não é um debate sobre por quem tu te atraís ou não. Sexo, relacionamento, como vão se estruturar e os limites nós resolvemos no nosso cotidiano. A questão é o como um post de um blog que pretensamente se diz de esquerda consegue ajudar a manter uma série de preconceitos e estruturar um discurso de mal menor que foi construído pelo stalinismo e isso deve ser combatido cotidianamente.
No fundo esse texto só demonstra o quanto é preciso avançar no debate político para haver a compreensão de que as pautas feministas, anti-racistas, socialistas se dialogam dentro de um mesmo projeto de forma paritária e não proporcional. Não existe opressão menor ou maior, existe opressão e ela ajuda a manter um sistema de exploração que cotidianamente quer nos matar, nos aniquilar, pois somos os indesejáveis. Tá aí o problema do texto, ele simplesmente conserva o que a burguesia, os poderosos, os reacionários de plantão querem deixar quieto.

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