Friday, August 16, 2013

Lola, seu texto me estuprou - e "perdão" não vai curar isso.

Nesse momento a única pergunta que eu consigo fazer (sobre o texto polêmico -e desnecessário- da Lola) é a seguinte: Como as mulheres, feministas, leitoras assíduas desse blog (que é o mais lido sobre o tema) estão se sentindo?

Um dos maiores papeis do feminismo, na minha opinião, é chegar para as mulheres que são violentadas diariamente e falar em alto e bom som que a culpa não é delas. E a culpa realmente não é. Um dos trabalhos mais difíceis do feminismo talvez seja conscientizar as vítimas de que o agressor é o pleno culpado pela agressão. É algo obvio em outras áreas da vida, mas não é tão óbvio assim quando se trata de alguma violência contra a mulher.

Quando você é assaltado e vai fazer o Boletim de Ocorrência, nenhum policial vai te questionar o motivo de você estar andando sozinho. Agora, o que acontece diariamente nas Delegacias da Mulher são questionamentos vazios e sem qualquer relevância. Se a mulher foi estuprada, que valor tem a roupa que ela usava? Que valor tem a hora que ela estava andando na rua? Que valor tem se ela estava bêbada? Algum desses fatores alteraria a sentença de "culpado"? Algum desses fatores causaria uma sensação de "ah, estuprador, eu te entendo"? 

E quando uma mulher, sozinha, com medo, recém agredida vai até uma Delegacia (supostamente) da Mulher e é abordada e metralhada com perguntas que deixam a entender que se ela não fosse ela, se ela não agisse como agiu, ela não teria sido violentada, essa mulher aceita que a culpa foi dela. Não foi o estuprador que agiu, foi ela que fez o estuprador agir. 

Essa é uma questão ampla. A violência contra a mulher é silenciada todos os dias, no nosso cotidiano, na nossa rotina. A violência contra a mulher é naturalizada na nossa cultura. E é papel do feminismo desnaturalizar isso e dar apoio para as mulheres. E o primeiro passo é dizer: A culpa não foi sua. 

Explico, então, por que quero saber como as mulheres violentadas que são feministas e leitoras do blog estão se sentindo: As outras mulheres, a grande maioria que sofre a agressão, as que apanham caladas pois acham que realmente a culpa é delas, as que ainda não escutaram que elas podem e devem pedir ajuda ainda não aprenderam o básico: Que o estuprador é estuprador independente dela denunciar. 

Não há um botão de liga-desliga que move as ações dos agressores. E eu não me refiro à eles como monstros, pq isso tira um pouco da responsabilidade masculina nisso tudo. Não digo que a culpa é dos homens individualmente. A culpa é do homem que foi construído na nossa sociedade. E um dos pontos que vale pensar é que, se a culpa do estupro é da mulher (como a sociedade adora afirmar), então todos os homens são estupradores em potencial? Desculpa, mas eu não acredito nisso. Só que acredito que a carga de pensamentos, "mandamentos" e ideias que são passadas para os homens fazem com que eles invisibilizem o estupro (e outras diversas formas de agressão). 

A questão é que diversos grupos/coletivos feministas (se não todos) trabalham cotidianamente com a mulher que não tem a mínima noção de seus direitos. Trabalham com a mulher que acha que é culpada pela agressão que sofreu. Trabalham com a mulher que está simplesmente perdida na situação. E trabalham também com a mulher que não entende que sofreu uma agressão. 

Eu quero saber o que está se passando pela cabeça das mulheres que ajudam as outras. As que tem noção de que não são culpas e passam a vida tentando passar essa mensagem para as outras. Por que essas mulheres, que leem o blog da Lola, encontram (ou encontravam) lá um refúgio. Quer dizer, pelo menos eu fazia o blog "Escreva Lola Escreva" como um Google-feminista. Era incrível como todos os assuntos eram presentes ali.

Só que, então, há uma postagem que diz: "Você, estuprador, também é vítima". 

O papel do feminismo não é se preocupar se o estuprador vai se "curar" ou não. Isso não é doença. O estupro é tão enraizado na nossa sociedade que acontece diariamente. Acontece entre familiares (na maior parte dos casos). O estupro-no-bosque-escuro-e-com-a-vitima-perfeita não existe! O estupro que existe é com as pessoas comuns, a sua vizinha, a minha vizinha, a amiga em comum que temos. O estupro não é somente um homem dominando uma mulher que luta até perder as forças. Muitas vezes, o estuprador já dominou todas as forças da vítima antes de encostar nela. 

E quando um blog que incentiva o feminismo de milhares de militantes e é o ponto de acesso para as que ainda vão entender o feminismo, dá espaço para um estuprador dizer que ele se arrepende, mas não vai se entregar para a polícia pq o maior sofrimento para ele é saber que é estuprador, ela abre espaço para até as mulheres que já aceitaram que a culpa não é delas, se questionarem sobre o fato novamente. 

Feminismo é sim uma questão de direitos humanos. Eu sou contra castração química (principalmente pq não resolveria o problema) e sou contra a pena de morte. Só que isso não quer dizer que eu vou perdoar os agressores das minhas irmãs, amigas e familiares. Isso não quer dizer que eu vou perdoar os agressores das mulheres que não conheço. Não é papel do feminismo perdoar um ato de crueldade; é papel -fundamental- dele proteger as vítimas. 

E, Lola, você acaba de mandar várias mulheres de volta para a guilhotina.

1 comment:

  1. Penso que você fez uma interpretação equivocada. Quando a Lola diz "que o estuprador também é vítima" não tem nada haver com perdoar sujeito x e deixar esse crime passar batido. Ela está afirmando exatamente o que você disse quando declarou que "não digo que a culpa é dos homens individualmente. A culpa é do homem que foi construído na nossa sociedade". Porque o estupro não é um caso isolado, ele é expressão de uma sociedade que promove a cultura do estupro, que considera o corpo da mulher como alvo de controle e dominação. Dessa cultura que diz que "mulher tem que se dar ao respeito", que existe "mulher pra pegar e mulher pra namorar".

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