Nesse
momento a única pergunta que eu consigo fazer (sobre o texto polêmico
-e desnecessário- da Lola) é a seguinte: Como as mulheres, feministas,
leitoras assíduas desse blog (que é o mais lido sobre o tema) estão se
sentindo?
Um
dos maiores papeis do feminismo, na minha opinião, é chegar para as
mulheres que são violentadas diariamente e falar em alto e bom som que a
culpa não é delas. E a culpa realmente não é. Um dos trabalhos mais
difíceis do feminismo talvez seja conscientizar as vítimas de que o
agressor é o pleno culpado pela agressão. É algo obvio em outras áreas
da vida, mas não é tão óbvio assim quando se trata de alguma violência
contra a mulher.
Quando
você é assaltado e vai fazer o Boletim de Ocorrência, nenhum policial
vai te questionar o motivo de você estar andando sozinho. Agora, o que
acontece diariamente nas Delegacias da Mulher são questionamentos vazios
e sem qualquer relevância. Se a mulher foi estuprada, que valor tem a
roupa que ela usava? Que valor tem a hora que ela estava andando na rua?
Que valor tem se ela estava bêbada? Algum desses fatores alteraria a
sentença de "culpado"? Algum desses fatores causaria uma sensação de
"ah, estuprador, eu te entendo"?
E
quando uma mulher, sozinha, com medo, recém agredida vai até uma
Delegacia (supostamente) da Mulher e é abordada e metralhada com
perguntas que deixam a entender que se ela não fosse ela, se ela não
agisse como agiu, ela não teria sido violentada, essa mulher aceita que a
culpa foi dela. Não foi o estuprador que agiu, foi ela que fez o
estuprador agir.
Essa
é uma questão ampla. A violência contra a mulher é silenciada todos os
dias, no nosso cotidiano, na nossa rotina. A violência contra a mulher é
naturalizada na nossa cultura. E é papel do feminismo desnaturalizar
isso e dar apoio para as mulheres. E o primeiro passo é dizer: A culpa
não foi sua.
Explico,
então, por que quero saber como as mulheres violentadas que são
feministas e leitoras do blog estão se sentindo: As outras mulheres, a
grande maioria que sofre a agressão, as que apanham caladas pois acham
que realmente a culpa é delas, as que ainda não escutaram que elas podem
e devem pedir ajuda ainda não aprenderam o básico: Que o estuprador é
estuprador independente dela denunciar.
Não
há um botão de liga-desliga que move as ações dos agressores. E eu não
me refiro à eles como monstros, pq isso tira um pouco da
responsabilidade masculina nisso tudo. Não digo que a culpa é dos homens
individualmente. A culpa é do homem que foi construído na nossa
sociedade. E um dos pontos que vale pensar é que, se a culpa do estupro é
da mulher (como a sociedade adora afirmar), então todos os homens são
estupradores em potencial? Desculpa, mas eu não acredito nisso. Só que
acredito que a carga de pensamentos, "mandamentos" e ideias que são
passadas para os homens fazem com que eles invisibilizem o estupro (e
outras diversas formas de agressão).
A
questão é que diversos grupos/coletivos feministas (se não todos)
trabalham cotidianamente com a mulher que não tem a mínima noção de seus
direitos. Trabalham com a mulher que acha que é culpada pela agressão
que sofreu. Trabalham com a mulher que está simplesmente perdida na
situação. E trabalham também com a mulher que não entende que sofreu uma
agressão.
Eu
quero saber o que está se passando pela cabeça das mulheres que ajudam
as outras. As que tem noção de que não são culpas e passam a vida
tentando passar essa mensagem para as outras. Por que essas mulheres,
que leem o blog da Lola, encontram (ou encontravam) lá um refúgio. Quer
dizer, pelo menos eu fazia o blog "Escreva Lola Escreva" como um
Google-feminista. Era incrível como todos os assuntos eram presentes
ali.
Só que, então, há uma postagem que diz: "Você, estuprador, também é vítima".
O
papel do feminismo não é se preocupar se o estuprador vai se "curar" ou
não. Isso não é doença. O estupro é tão enraizado na nossa sociedade
que acontece diariamente. Acontece entre familiares (na maior parte dos
casos). O estupro-no-bosque-escuro-e-com-a-vitima-perfeita não existe! O
estupro que existe é com as pessoas comuns, a sua vizinha, a minha
vizinha, a amiga em comum que temos. O estupro não é somente um homem
dominando uma mulher que luta até perder as forças. Muitas vezes, o
estuprador já dominou todas as forças da vítima antes de encostar nela.
E
quando um blog que incentiva o feminismo de milhares de militantes e é o
ponto de acesso para as que ainda vão entender o feminismo, dá espaço
para um estuprador dizer que ele se arrepende, mas não vai se entregar
para a polícia pq o maior sofrimento para ele é saber que é estuprador,
ela abre espaço para até as mulheres que já aceitaram que a culpa não é
delas, se questionarem sobre o fato novamente.
Feminismo
é sim uma questão de direitos humanos. Eu sou contra castração química
(principalmente pq não resolveria o problema) e sou contra a pena de
morte. Só que isso não quer dizer que eu vou perdoar os agressores das
minhas irmãs, amigas e familiares. Isso não quer dizer que eu vou
perdoar os agressores das mulheres que não conheço. Não é papel do
feminismo perdoar um ato de crueldade; é papel -fundamental- dele
proteger as vítimas.
E, Lola, você acaba de mandar várias mulheres de volta para a guilhotina.
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Penso que você fez uma interpretação equivocada. Quando a Lola diz "que o estuprador também é vítima" não tem nada haver com perdoar sujeito x e deixar esse crime passar batido. Ela está afirmando exatamente o que você disse quando declarou que "não digo que a culpa é dos homens individualmente. A culpa é do homem que foi construído na nossa sociedade". Porque o estupro não é um caso isolado, ele é expressão de uma sociedade que promove a cultura do estupro, que considera o corpo da mulher como alvo de controle e dominação. Dessa cultura que diz que "mulher tem que se dar ao respeito", que existe "mulher pra pegar e mulher pra namorar".
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