Alguns anos atrás, uma pessoa que estava conversando comigo quis me indicar uma pessoa numa multidão. Como é de praxe, ela tentou dar referências físicas. A primeira dica era que a pessoa era morena. Comecei a olhar e pelo menos uns 80% das pessoas no local tinham cabelo preto, então não consegui localizá-lo. Fui pedindo mais referências até que descobri que a pessoa que estava comigo usava “moreno” como “negro”.
Esse episódio foi bem marcante para mim porque eu descobri uma coisa: as pessoas evitam ao máximo chamar alguém de negro. E para mim isso sempre foi um incômodo. Primeiro, para mim “moreno” sempre era uma referência sobre a cor de cabelo de alguém, idenpendente se a pessoa é branca, negra, indígena ou asiática. Segundo, o comportamento das pessoas de evitarem chamar alguém de negro passava a impressão que ser negro era algo ruim, um xingamento, por isso amenizavam com a palavra “moreno”.
Eu nunca evitei chamar alguém de negro, por que eu quero que essa palavra só indique a cor da pele da pessoa. Não quero forçar a barra evitando a palavra N como se eu considerasse que “negro” implicasse que a pessoa era mais isso ou menos aquilo.
E é exatamente essa a questão com a palavra lésbica. Muitas pessoas tentam a qualquer custo evitar essa palavra.
Eu demorei muito tempo até entender a genialidade do nome da série lésbica mais famosa. Quando eu comecei a assistir, láááá no meu tempo de new-lesbian, eu sempre confundia o nome da série com “The L World” porque para mim fazia muito mais sentido aquilo ser um MUNDO do que uma PALAVRA.
Mas com o tempo e a experiência, eu percebi a grande sacada do nome. Não é porque L é de Love, e não de Lesbian, porque a série é sobre, acima de tudo, amor e blablabla. Me poupem, né? The L Word porque a palavra L é ofensiva, chocante, impronunciável numa grade de programação. Assim como a idéia de lésbicas numa série de TV. Assim como lésbicas na sociedade.
Eu até chego a entender porque pessoas heteros tenham receio de usar a palavra lésbica. Da mesma forma que pessoas brancas tenham receio de usar a palavra negro. Não concordo, mas entendo. São palavras que há muito tempo vinham carregadas de conceitos pejorativos. Mas a palavra lésbica ainda tem uma barreira muito maior a romper do que negro.
Na minha casa, por exemplo, até eu me assumir a palavra para designar lésbicas era “sapatona” (sim, posso falar de “preconceito da sociedade” porque eu cresci numa família ideal para aprender preconceitos de sociedade). Depois, esse conceito deixou de existir. Ninguém tinha problema algum em falar sapotona, mas usar a palavra lésbica JAMAIS! Seria como validar minha existência lésbica e minha sexualidade. A sociedade pode nos ofender, mas nos reconhecer é outra história.
O blog de tirinhas Mulher de 30 tem uma personagem lésbica - o que é muito bom - mas ela é descrita como "personagem GAY".
Por isso, o que me deixa realmente irritada é quando lésbicas não falam lésbica. Se nós mesmas temos receio de usar a palavra lésbica, como se isso indicasse algo ruim, como podemos cobrar que os heteros não sejam preconceituosos se nós mesmas não nos aceitamos pelo que somos: lésbicas?
De certo você pode se justificar dizendo que não gosta da palavra lésbica. Você realmente acredita que seu único problema com a palavra lésbica é a sonoridade? Que viver numa sociedade que se recusa a falar essa palavra não te afetou em nada?
Não gosta de falar lésbica? Okay. Mas não acredite que isso é mero gosto pessoal. Não é uma coincidência que tantas pessoas não gostem de “lésbica”. Reconheça seu preconceito, pelo menos.
Existem vários termos e derivados na nossa comunidade para evitarmos a palavra L: fancha, sargento, sapa, sapatilha, sandalinha,
Para começo de história, nós não somos gays. Não somos homens, nem somos atraídos por homens. Somos mulheres e somos atraídas por mulheres. Nós somos o exato oposto de gays.
Outra questão é que nós não podemos nos esconder embaixo do nome gay. Já basta a predominância masculina na sociedade hetero. Nós somos lésbicas e nós temos nossa própria (sub)cultura. Arco-íris, unicórnios, rosa, drag queens, Madonna, saunas não fazem parte de nossa identidade. Assim como MPB, xadrez, luta no óleo e relacionamentos à distância não fazem parte da identidade gay.
Nós temos uma única coisa em comum com gays: nós amamos pessoas do mesmo sexo. E para isso existe o termo homossexual, que é uma categoria acima de gays e que nos abrange.
E se você acha que gay é uma palavra que vai nos fazer sofrer menos preconceito do que lésbica, se pergunte: a palavra “gay” é aceita hoje em dia porque gays evitavam usar essa palavra? Gay nunca foi uma palavra ofensiva? Gay não é uma palavra que desemerece os conceitos de masculinidade (gay significava alegre, além de ter uma sonoridade fofinha… Não parece coisa de machão, não é?)?
Então vamos parar de viadagem (cof) e vamos abraçar a palavra que nos liga aos nossos primórdios na ilha de Lesbos! Eu tenho a palavra L na boca e não tenho medo de usá-la!
PS. É válido ler esse post também;
PS2. Semana que vem começa o Miss Lésbica com os melhores prêmios que o meu dinheiro pode comprar. Então aguardem!
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