O estuprador já tem voz e fala mais alto que a vítima
Não é função minha e nem de ninguém confiscar carteirinhas feministas.
Desde que embarquei no feminismo entendi ser essa uma luta plural, com
espaço para as mais diferentes opiniões. Por isso, mesmo com todo o
respeito que tenho pela Lola Aronovich (que é uma das minhas maiores
referências em feminismo), me sinto no direito de discordar. Não é a
primeira vez que discordo da Lola, mas é a primeira vez que senti o
desejo de expressar essa divergência. Esse texto não é um ataque, mas um
contraponto ao guestpost da Lola escrito por um estuprador arrependido.
O estuprador tem voz e fala mais alto que a vítima. Quando acontece um
estupro, não podemos supor que as duas pessoas envolvidas (estuprador e
vítima) tem o mesmo poder, um sobre o outro. E que por isso devemos
observar friamente a situação como se pesássemos em uma balança ou nos
dividir em duas partes igualmente predispostas a aceitar a culpa ou o
arrependimento do agressor. Na balança do estupro, o que pesa mais é
sempre o trauma da vítima.
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| Publicado no Washington Post |
Não vivemos em uma sociedade igualitária onde se escutam os dois lados. O
lado da vítima não é o lado mais ouvido, caso contrário não haveria um
gráfico de condenação em casos de estupro como este ao lado. A vítima do
estupro se torna ré, tem sua denúncia deslegitimada, é chamada de
suposta vítima. Tudo na pessoa que foi estuprada é analisado buscando
justificar os atos do seu agressor. E não é à toa que quem sofre o
estupro se culpa, pois é assim que ela é tratada: como o motivo, a
justificativa, a razão de ser do estupro.
Estupradores não se identificam como tal por um motivo: Cultura do
estupro. Os homens são criados para não respeitar o espaço da mulheres
em todas as instâncias. Por isso seguem sem se questionar porque ganham
mais ou tem melhores oportunidades de emprego que a amiga, ou jogam
cantadas para mulheres nas ruas ou ainda pior: estupram. Tudo sob um
manto de normalidade. Impera o silêncio nas agressões sexuais dentro da
família. A família é uma zona cinzenta onde a agressão tem status de
normalidade. Ninguém quer falar sobre isso, pois a família deve ser o
refúgio de amor. E onde há o amor, a agressão não poderia existir. Mas
ela existe e é varrida para baixo do tapete, escondida com ameaças,
vergonha e medo.
Aos que encaram o estupro apenas como a penetração, recomendo se
informar. A chave para o entendimento reside em duas palavras: "Não
consensual". Qualquer passada de mão não consensual é tipificado com
estupro no código penal. Defender isso numa lei escrita e a sua devida
aplicação não é punitivismo, é proteção. Ninguém acredita que o sistema
penitenciário brasileiro é perfeito e que seja o ambiente propício para a
reabilitação. Porém a simples alegação de arrependimento não significa
que: 1- O agressor está de fato arrependido, e 2 - Que esse
arrependimento será suficiente para que ele não volte a agredir. É
preciso lembrar que o arrependimento como argumento para o perdão é um
dos motivos pelos quais a violência doméstica se perpetua. O agressor se
arrepende, a vítima perdoa, a violência segue seu ciclo.
Para todos os efeitos, arrependimento e perdão são questões muito
entrelaçadas às religiões. E não é a religião que deve regular a
justiça. A justiça não deve medir os arrependimentos, ela deveria medir
os fatos, as provas, o contexto (sem com isso tentar justificar com "ela
estava pedindo por isso"). Cabe sim, à justiça, ouvir os dois lados.
O que eu acho problemático é que diante de um cenário desproporcional
onde pouco se ouve a vítima, estejamos ainda, em ambientes libertários,
dando mais voz aos agressores do que eles já têm. Como disse Ayres
Britto, "A mesma liberdade para cordeiros e lobos é excelente para os
lobos". Uma boa definição de isonomia. Eu defendo o direito do
estuprador a se defender, se arrepender, tentar melhorar, se reabilitar,
procurar apoio psicológico e etc. Eu defendo esse homem como a qualquer
pessoa que seja acusado de um crime. Porém, aqui fora dos tribunais,
onde a vítima pedirá socorro, eu estarei mais disposta a ouví-la. Porque
o feminismo que eu defendo empodera as mulheres. Sejam elas cis ou
trans, brancas ou negras, pobres ou ricas e etc. O machismo afeta cada
uma de nós de forma diferente, por isso eu busco (nem sempre consigo) um
feminismo interseccional, mas que esteja sempre ao lado das mulheres.
Serei prolixa: Feminismo pró-mulher (óbvio? redundante? sim, mas às
vezes é preciso recordar). Isso não significa que eu queira dizer que
homens não são oprimidos pelo patriarcado, porém, esse não é o meu foco
da luta. Eu entendo que o patriarcado também oprima aos homens, mas a
opressão sobre as mulheres é muito maior, mais abusiva e violenta.
Não concordo em ceder espaço a quem estupra, ainda que essa pessoa
alegue arrependimento, não nos empodera. Pelo contrário, há um risco
enorme de trigger. Não acho justo fazer isso com as leitoras que já
sofreram abusos. E acredito que chamar quem deseja que o estuprador
cumpra o seu tempo de prisão, estipulado pela justiça, de punitivismo, é
silenciar vítimas. Não são só as feministas que desejam que o
estuprador seja preso (esse do guestpost, ou outro estuprador), mas
também as suas vítimas. Essa afirmação só coloca mais dúvidas e culpa em
quem sofreu a violência. Então, por hoje é só, pessoal. Peço desculpas
por criticar longamente um posicionamento de uma companheira, mas
preferi fazê-lo da forma mais clara possível, sem dar margem para que me
chamem de difamadora, caluniadora, sem sororidade e etc.
PS1: Mais um texto sobre o assunto: Arrependimento não leva para o céu feminista.
PS2: Não estou dizendo que a Lola não dá voz a vítima, sabemos que é bem o contrário.

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